Pesquisas Documentais

Pesquisa de processos judiciais: quando consultar e como ler o resultado

Pesquisa de processos judiciais é a busca, nos tribunais, por ações em que uma pessoa ou empresa figura como parte. Pela Resolução CNJ nº 121/2010, número, partes, movimentação e decisões são públicos na internet, sem cadastro, salvo segredo de justiça. Para prova formal, use a certidão de distribuição de cada ramo da Justiça.

Em resumo

  • Qualquer pessoa pode consultar os dados básicos de processos, sem demonstrar interesse (Resolução CNJ nº 121/2010, art. 1º).
  • Processos de família, casos com dados íntimos e alguns casos de arbitragem tramitam em segredo de justiça (CPC, art. 189).
  • Não existe uma única certidão nacional: Justiça Estadual, Federal e do Trabalho emitem documentos próprios.
  • Na compra de bens, processos contra o vendedor podem levar à discussão de fraude à execução (CPC, art. 792).

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DB Por  Publicado em Atualizado em  13 min de leitura
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Pessoas usando tablets para consultar e finalizar documentos digitalmente — pesquisa de processos judiciais

O que a pesquisa de processos judiciais revela?

A pesquisa revela se alguém é autor ou réu em ações cíveis, execuções, processos trabalhistas, federais ou criminais, e em que fase eles estão. É uma das camadas da due diligence documental, ao lado de protestos, certidões fiscais e registros de bens.

O conteúdo acessível está definido no art. 2º da Resolução CNJ nº 121/2010: número, classe e assuntos do processo; nome das partes e dos advogados; movimentação processual; e inteiro teor de decisões, sentenças, votos e acórdãos. Com isso, é possível saber quem processa quem, por qual motivo e o que o juiz já decidiu.

Ela não revela tudo. Petições e documentos juntados, em regra, ficam acessíveis só às partes, advogados e Ministério Público cadastrados (art. 3º da mesma resolução). Processos sob sigilo também ficam de fora da consulta aberta.

Quais informações de processos são públicas e quais ficam restritas?

A regra é a publicidade, com exceções previstas em lei e em normas do CNJ. O art. 189 do Código de Processo Civil diz que os atos processuais são públicos, mas manda tramitar em segredo de justiça os processos que envolvam interesse público ou social; casamento, divórcio, união estável, filiação, alimentos e guarda; dados protegidos pela intimidade; e arbitragem com confidencialidade comprovada.

A Resolução CNJ nº 121/2010 acrescenta restrições à busca. Em processos criminais, depois de absolvição definitiva, extinção da punibilidade ou cumprimento da pena, a consulta pública fica limitada ao número do processo. Na Justiça do Trabalho, a busca pública é feita pelo número do processo e pelo nome ou registro na OAB do advogado, e não pelo nome das partes (art. 4º, § 1º).

Há ainda um cuidado de proteção de dados. O art. 7º, § 3º, da Lei Geral de Proteção de Dados exige que o tratamento de dados de acesso público respeite a finalidade, a boa-fé e o interesse público que justificaram sua divulgação. Pesquisar para decidir um negócio é diferente de expor ou discriminar alguém.

Qual a diferença entre consulta processual e certidão de distribuição?

A consulta processual é uma busca livre nos sistemas dos tribunais, útil para triagem. A certidão de distribuição é o documento oficial que atesta, com fé pública, a existência ou não de processos contra uma pessoa. O art. 6º da Resolução CNJ nº 121/2010 diz que a certidão judicial identifica os processos em que a pessoa figura no polo passivo, ou seja, como ré.

O art. 8º acrescenta que a certidão é negativa quando não há processo em tramitação contra a pessoa. A consulta mostra também processos em que ela é autora e processos já arquivados, enquanto a certidão foca no que está em andamento contra ela. A tabela resume onde cada ramo da Justiça emite o documento.

Onde pesquisar processos em cada ramo da Justiça
Ramo Consulta pública Documento formal Observação
Justiça Estadual Sistema do Tribunal de Justiça de cada estado Certidão de distribuição cível e criminal do TJ Cada estado tem regras, custos e abrangência próprios
Justiça Federal Sistemas dos seis Tribunais Regionais Federais Certidão Unificada da Justiça Federal Emitida por todos os TRFs ao mesmo tempo, pelo portal do CJF
Justiça do Trabalho Sistemas dos TRTs, com busca pública restrita por nome da parte CNDT, que trata de débitos; certidões de ações conforme cada TRT A CNDT não é uma lista de processos
Vários tribunais Portal Jus.br, que reúne serviços e consulta de processos Não substitui as certidões de cada ramo Útil como ponto de partida

O Conselho da Justiça Federal informa que a Certidão Unificada é emitida de forma eletrônica e simultânea por todos os TRFs, sem necessidade de acessar o site de cada um. Os detalhes estão no guia da certidão de distribuição da Justiça Federal.

Em quais situações vale fazer pesquisa de processos judiciais?

Vale sempre que o resultado puder mudar a decisão, o preço ou as garantias de um negócio. Estes são os casos mais comuns:

  • Compra de imóvel: ações e execuções contra o vendedor podem comprometer o bem. O tema completo está no guia sobre como reduzir riscos documentais na compra de imóvel.
  • Compra de bem móvel sem registro público: o ônus de provar a cautela recai sobre o comprador, como explicado mais adiante. Para carros, veja a pesquisa de veículo antes da compra.
  • Contratação de fornecedor relevante: muitas execuções ou ações trabalhistas contra uma empresa indicam risco de entrega e de passivo.
  • Entrada em sociedade ou compra de empresa: processos contra a empresa e contra os sócios entram no preço e nas cláusulas de proteção.
  • Concessão de crédito ou locação: execuções em andamento mostram disputa com outros credores.

Pedidos de falência e recuperação judicial têm certidão própria, tratada no artigo sobre certidão de falência e recuperação judicial. Em contratações de pessoas, a pesquisa criminal segue regras mais rígidas; veja a certidão de antecedentes criminais.

Por que processos contra o vendedor importam na compra de bens?

Porque a venda de um bem por quem está sendo processado pode ser considerada fraude à execução e perder efeito em relação ao credor. O art. 792 do Código de Processo Civil lista as hipóteses. Uma delas é quando, na data da venda, tramitava contra o devedor ação capaz de reduzi-lo à insolvência (inciso IV). O § 1º diz que a alienação em fraude à execução é ineficaz em relação ao exequente.

Para imóveis, a Lei nº 13.097/2015 trouxe o princípio da concentração na matrícula. O art. 54 torna o negócio eficaz frente a atos anteriores que não estejam registrados ou averbados na matrícula. O § 2º, na redação da Lei nº 14.382/2022, diz que certidões forenses ou de distribuidores judiciais não são exigidas para a validade do negócio ou para caracterizar a boa-fé do comprador.

Mesmo assim, muitos compradores e financiadores continuam pedindo certidões judiciais do vendedor, porque elas mostram riscos que ainda não chegaram à matrícula. Já para bens sem registro, como muitos móveis, o art. 792, § 2º, do CPC impõe ao comprador o ônus de provar que exibiu as certidões obtidas no domicílio do vendedor e no local do bem. Como aplicar isso ao seu caso é pergunta para um advogado.

Como fazer a pesquisa de processos judiciais passo a passo?

O roteiro abaixo vai da triagem à prova formal e serve tanto para pessoa física quanto para empresa.

  1. Defina o objetivo e a abrangência: descubra quem vai receber o resultado e quais ramos, estados e períodos ele exige. Editais e bancos costumam especificar.
  2. Reúna os dados de identificação: nome completo, CPF ou CNPJ e, para empresas, a razão social e os nomes dos sócios que também serão pesquisados.
  3. Faça a triagem nas consultas públicas: use o portal Jus.br e os sistemas dos tribunais onde a pessoa mora, tem sede ou tem bens.
  4. Emita as certidões formais: peça a certidão do TJ do estado, a Certidão Unificada da Justiça Federal e os documentos trabalhistas pertinentes.
  5. Abra os processos relevantes: para cada ação encontrada, leia classe, valor, fase e últimas decisões.
  6. Registre a data: arquive certidões e prints com data, porque a situação muda a cada nova distribuição.

Na Justiça do Trabalho, a Certidão Negativa de Débitos Trabalhistas é expedida gratuitamente pelo TST. Pelo art. 642-A da CLT, incluído pela Lei nº 12.440/2011, ela comprova a inexistência de débitos inadimplidos perante a Justiça do Trabalho. Os detalhes estão no guia da certidão trabalhista CNDT.

Como interpretar o resultado sem tirar conclusões erradas?

Leia cada processo pelo papel da pessoa, pelo tipo de ação e pela fase em que está. Um resultado “positivo” pode ser irrelevante ou grave, conforme estes pontos:

  • Autor ou réu: ser autor de ações de cobrança é comum em empresas; o risco costuma estar no polo passivo.
  • Classe processual: execução e cumprimento de sentença indicam dívida já reconhecida, diferente de uma ação ainda em discussão.
  • Valor e proporção: compare o valor da causa com o porte da empresa ou a renda da pessoa.
  • Recorrência: muitas ações do mesmo tipo, como reclamações trabalhistas, sugerem problema estrutural.
  • Homônimos: pelo art. 8º, § 2º, da Resolução CNJ nº 121/2010, a certidão deve ser negativa quando o processo for de homônimo e não houver dados para individualizar a pessoa, com essa observação no documento.

Uma sentença absolutória ou um arquivamento podem ser anotados a pedido do interessado na certidão (art. 9º da resolução). Por isso, quando o assunto for sensível, peça esclarecimentos à própria pessoa antes de decidir.

Com que frequência repetir a pesquisa de processos?

Repita a pesquisa perto de cada decisão importante e, em relações contínuas, em intervalos definidos pela sua política de risco. Uma certidão retrata só o dia da emissão: uma execução distribuída na semana seguinte não aparece nela.

Na compra de imóvel, o ideal é que as certidões do vendedor sejam recentes na data da escritura. Em contratos longos com fornecedores ou clientes, a checagem periódica de processos, protestos e situação cadastral evita surpresas. O guia de monitoramento de CPF e CNPJ mostra como organizar esse acompanhamento. Protestos, que muitas vezes antecedem execuções, estão no guia de pesquisa de protesto.

Quando for preciso reunir certidões de vários tribunais e estados, o Documento no Brasil pode solicitar as certidões de distribuição em seu nome.

Perguntas frequentes

Qualquer pessoa pode consultar processos de outra pessoa?

Sim, em regra. A Resolução CNJ nº 121/2010 garante a qualquer pessoa o acesso aos dados básicos dos processos pela internet, sem cadastro e sem demonstrar interesse. As exceções são os processos em segredo de justiça e algumas restrições de busca, como em ações criminais já encerradas e na Justiça do Trabalho.

Existe uma certidão única de processos válida no Brasil inteiro?

Não. Cada ramo da Justiça emite o próprio documento. A Justiça Federal tem a Certidão Unificada, emitida por todos os TRFs ao mesmo tempo. A Justiça Estadual depende do Tribunal de Justiça de cada estado, e a Justiça do Trabalho tem a CNDT e certidões dos TRTs. Por isso, defina antes quais ramos importam.

Certidão negativa garante que a pessoa não tem nenhum processo?

Não necessariamente. A certidão judicial foca nos processos em que a pessoa é ré e que estão em tramitação na área e no período pesquisados. Ações em outros estados, em outro ramo da Justiça ou distribuídas depois da emissão não aparecem. Confira sempre a abrangência escrita no próprio documento antes de confiar no resultado.

Processo em segredo de justiça aparece na pesquisa?

Na consulta pública, não. O Código de Processo Civil restringe o acesso a esses autos às partes e a seus procuradores. Um terceiro com interesse jurídico pode pedir ao juiz certidão do dispositivo da sentença e de inventário ou partilha resultantes de divórcio ou separação, mas o conteúdo do processo continua protegido.

Ser autor de muitos processos é sinal de risco?

Nem sempre. Empresas que vendem a prazo costumam ajuizar ações de cobrança contra clientes, e isso é parte da operação. O que pede atenção é o polo passivo: execuções, reclamações trabalhistas repetidas e ações de consumidores em volume. Avalie o tipo de ação, os valores e o resultado das decisões antes de concluir.

O comprador de imóvel precisa de certidões judiciais do vendedor?

A Lei nº 13.097/2015, com redação da Lei nº 14.382/2022, diz que certidões forenses não são exigidas para a validade do negócio nem para caracterizar a boa-fé do comprador. Ainda assim, bancos e compradores cautelosos costumam pedi-las, porque revelam riscos que ainda não constam na matrícula. Um advogado pode avaliar o caso concreto.

A pesquisa de processos é a mesma coisa que antecedentes criminais?

Não. A pesquisa de processos cobre ações cíveis, trabalhistas, federais e criminais nos tribunais. A certidão de antecedentes criminais é outro documento, emitido por órgãos de segurança pública ou pela Justiça conforme o caso, e tem regras próprias de uso, sobretudo em contratações de trabalho, onde há limites legais e de proteção de dados.

Posso usar o resultado da pesquisa para recusar um negócio?

Pode usar como elemento da decisão, desde que com finalidade legítima e boa-fé, como exige a Lei Geral de Proteção de Dados para dados de acesso público. Evite conclusões com base em homônimos, processos já encerrados a favor da pessoa ou ações sem relação com o negócio. Documente o critério usado e, se possível, ouça a outra parte.

Fontes consultadas

DB

Redação e apuração · Documento no Brasil

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